quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O encontro com ele...


Pensou então no dia em que se tinha encontrado com o filho de Deus, e na bondade que ele lhe havia demonstrado. Jamais alguém tinha sido tão bondoso para ela. Podia muito bem ter-lhe suplicado que a curasse da sua deformidade, mas não o fez, de propósito. Teria sido fácil para ele, porém ela não o quis pedir. Ele ajudava os que realmente necessitavam de ajuda, realizava obras maravilhosas. Não o quis importunar por tão pouco.
Não era estranho, muito estranho, o que ele dissera ao se aproximar dela, vendo-a ajoelhada na poeira do caminho?
- Também imploras milagres de mim? - perguntara ele.
- Não, senhor. Contento-me em te ver passar.
Então, olhando-a, muito meigo e ao mesmo tempo triste, ele afagara-a no rosto e tocara-lhe com a boca, sem que alguma modificação se operasse. Depois disse:
- Tu darás testemunho de mim.
Que palavras extraordinárias! O que quereria ele dizer? Darás testemunho de mim? Ela? Era incompreensível. Como o poderia fazer?
Ele não tivera dificuldade em entender o que ela dizia; como a todos os outros, entendera-a imediatamente. Mas nada havia de surpreendente nisso, pois era filho de Deus.
Ali deitada, ela pensava tanta coisa... Na expressão do Mestre quando ele lhe dirigira a palavra, no odor das suas mãos quando lhe tocara os lábios.
As estrelas reflectiam-se nos seus grandes olhos, muito abertos, e ela viu, admirada, que se tornavam mais numerosas quanto mais as contemplava. Desde que deixara de morar sob um telhado, tinha visto tantas estrelas... O que eram afinal? Não o sabia. Tinham sido criadas por Deus, naturalmente, mas o que eram? No deserto havia muitas estrelas... E também nas montanhas. Nas montanhas de Gilgal... Mas não na noite em que... Não, naquela noite não.

domingo, 9 de novembro de 2008

O reino da morte...


A mulher de lábio leporino não conseguia dormir. Com o solhos erguidos para as estrelas, pensava no que iria acontecer. Não queria adormecer, estava disposta a velar a noite inteira.
Deitada num monte feito de ramos e palha numa vala fora da Porta do Monturo, ouvia à sua volta os enfermos gemendo e agitando-se no sono e o tilintar da sineta do leproso, que a dor forçava às vezes a levantar-se. O mau cheiro dos enormes amontoados de lixo preenchia todo o vale e dificultava a respiração. Ela, porém, estava tão acostumada que já não o sentia. Aliás, todos os que ali viviam não sentiam o cheiro.
Amanhã ao nascer do sol... Amanhã ao nascer do sol...
Que pensamento maravilhoso: dentro em breve os doentes seriam curados e os famintos receberiam alimentos. Mal se podia imaginá-lo. Como seria? O céu abrir-se-ia e os anjos desceriam para alimentar toda a gente, pelo menos todos os pobres? Os ricos, provávelmente, continuariam a comer nas suas próprias casas, mas todos os pobres, todos os que sofriam realmente com a fome, seriam alimentados pelos anjos... Aqui, junto à Porta do Monturo, tolhas seriam estendidas pelo campo, brancas toalhas de linho, cobertas com as mais variadas iguarias e todos se estenderiam no solo para comer. Nem era tão difícil imaginá-lo; bastava pensar que tudo seria completamente diferente do que era agora. Tudo mudaria, nada seria como se estava habituado a ver todos os dias.
Talvez ela mesmo tivesse outras vestes, quem sabe? Brancas, talvez. Ou uma túnica azul? Tudo se iria transformar, pois o filho de Deus já teria ressurgido e a alvorada de uma nova era estaria a raiar.
Amanhã... Amanhã ao nascer do sol. Era tão bom sabê-lo...
Ouvia, já mais perto, o conhecido tilintar das sinetas do leproso, que tinha o hábito de subir até ali à noite; as pessoas atingidas por esse mal viviam confinadas no fundo do vale, e não tinham o direito de transpor a sua barreira; mas na escuridão, ele atrevia-se a fazê-lo. Era como se o infeliz procurasse a proximidade dos seres humanos. Aliás, ele mesmo uma ocasião lhe disse isso mesmo. Ela viu-o avançando cautelosamente entre as pessoas adormecidas, sob a luz das estrelas.
O reino da morte... como seria, afinal? Diziam que o Mestre percorria o reino dos mortos... Qual seria o aspecto desse lugar? Não, isso ela não conseguia imaginar...

sábado, 1 de novembro de 2008

Foi em sua vez que Ele foi crucificado...


- Nem que a terra tremeu e a colina do Golgotá se abriu exactamente no local onde estava erguida a cruz?
- Isso não é verdade! É pura invenção. Como sabes que a colina se fendeu? Estiveste lá para ver?
Uma completa mudança operou-se súbitamente no outro. Olhou para Barrabás, meio titubeante e depois baixou os olhos.
- Não, não... Eu nada sei ao certo. Não o presenciei, nem o posso atestar - balbuciou ele.
Ficou algum tempo mudo e triste, suspirando dolorosamente. Afinal, pousando a mão no braço de Barrabás, continuou:
- Vês... Eu não estava com o meu Mestre quando ele sofria e agonizava. Eu tinha fugido. Abandonei-o e fugi. E antes já o tinha negado. E aí está o pior de tudo... renegá-lo! Como poderá ele perdoar-me? Que direi eu, que responderei, se ele me questionar?
Ocultou com as mãos o rosto cheio e barbado, num gesto de desespero.
- Como pude fazer semelhante coisa? Como é possível que possa ter cometido tal erro?...
Os seus límpidos olhos azuis estavam húmidos quando ele, afinal, ergueu a cabeça e fitou Barrabás:
- Perguntaste-me o que me afligia. Agora sabe-lo. Agora sabes como eu me sinto. E o meu Senhor e Mestre sabe-lo ainda melhor. Sou apenas uma pobre e miserável criatura humana... Achas que ele me perdoará?
Barrabás disse acreditar que sim. Na realidade, o que ouvia não bastava para despertar nele grande interesse, mas em todo o caso disse que sim, para mostrar simpatia e porque sentia pena daquele homem que se acusava a si mesmo de criminoso, embora não tivesse feito nada de mal. Pois haveria alguém no mundo que nunca tivesse traído, de um modo ou de outro?
O homem tomou-lhe a mão, apertando-a fortemente.
- Achas que sim? Achas que sim? - repetiu consternado.
Nesse momento, alguns homens passaram na rua. Quando viram o homem ruivo e o homem com quem falava, cuja mão retinha na sua, estremeceram e pararam, não querendo acreditar no que viam. Aproximaram-se depressa e, abordando com profundo respeito o homem mal vestido, gritaram alvoroçadamente:
- Não sabes quem é este indivíduo?
- Não - respondeu ele, o que era verdade. - Não sei. Mas é um homem compassivo e entendemo-nos muito bem.
- Não sabes então que foi em seu lugar que o Mestre foi crucificado?
O homem largou a mão de Barrabás e olhou de um lado para o outro, sem poder ocultar a sua perturbação. Os recém-chegados revelaram ainda mais claramente o que pensavam e sentiam, e ouvia-se-lhes a respiração ofegante, que denotava indignação.
Barrabás tinha-se erguido e virara-lhes as costas, para que ninguém lhe visse o rosto.
- Fora daqui, maldito! - gritaram os homens com violência.
Ele envolveu-se no seu manto e afastou-se, só, pela rua fora, sem se voltar uma única vez.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Não são coisas fáceis de compreender!


- E porque é que se deixou crucificar, se tinha tanto poder?
- Sim, sim... Já sei.... Não são coisas fáceis de compreender. Sou um homem simples, sabes? não me é nada fácil compreender tudo isso, podes crer.
- Não estás certo de que ele vai ressuscitar?
- Estou, sim, claro que estou. O que eles dizem é verdade, estou convencido disso. O mestre voltará para se revelar em toda a sua glória e esplendor. Estou absolutamente certo disso e eles, que o afirmam, conhecem as escrituras melhor do que eu. Será um grande dia. Dizem que vai começar então uma nova era, a era da bem aventurança, em que o filho do homem regenerá o seu reino.
- O filho do homem?
- Sim. É como ele se chamava a si mesmo.
- O filho do homem?
- Era assim que ele dizia. Mas há quem acredite... não, não posso dizer...
Barrabás aproximou-se mais.
- Em que acreditam eles?
- Acreditam... que ele é filho do próprio Deus.
- O filho de Deus?
- É... mas pode não ser verdade. Quase nos causa inquietação. Eu gostaria mais de o ver voltar de novo, como ele era antes.
Barrabás não podia conter a sua agitação.
- Como podem eles dizer semelhante absurdo? - gritou exaltado. - O filho de Deus! O filho de Deus crucificado! Devias entender que tal coisa é impossível!
- Eu já disse que pode não ser verdade. Tornarei a dizê-lo, se assim o quiseres....
- Que loucos acreditam nisso? - continuou Barrabás. A cicatriz sobre o olho tornou-se mais vermelha, como sempre acontecia nas ocasiões em que se exaltava. - O filho de Deus desceria à Terra? E começaria por percorrer a sua região natal e pregar?
- Porque não? Seria bem possível. Podia começar lá como em qualquer outro lugar. É uma cidade pobre e pequena, bem sei. Mas em algum lugar era preciso começar.
O homem era tão ingénuo que Barrabás teve vontade de rir. Mas a sua agitação impedia-o. Durante todo o tempo compunha o seu manto de pelo de cabra, como se este estivesse sempre a cair-lhe dos ombros, o que não era o caso.
- E os prodígios que marcaram a sua morte? - disse o outro. - Já pensaste neles?
- Que prodígios?
- Tudo escureceu no momento da sua morte. Não o sabias?
Barrabás virou o rosto e passou as mãos nos olhos.

sábado, 18 de outubro de 2008

Ressuscitar...





- Agora que ele morreu, compreende-se muito melhor aquilo que ele costumava dizer - murmurou o outro, como se falasse consigo mesmo.
- Tu conhecia-lo bem? - perguntou Barrabás.
- Claro. Conhecia-o muito bem. Estive com ele, lá em cima, desde o início, quando estava entre nós.
- Ah, bem. Ele era lá da tua terra.
- E depois segui-o sempre, por toda a parte, para onde quer que ele fosse.
- Porquê?
- Porquê? Bem, isso agora... Por aí se está a ver que não o conheceste...
- Que queres dizer com isso?
- Ele tinha... ele tinha um poder sobre as pessoas, compreendes? Um estranho poder, um domínio... Dizia simplesmente: "Segui-me!" e tinha-se de seguí-lo. Não se podia fazer outra coisa. Se o tivesses conhecido, compreenderias melhor... Também o terias seguido.
Barrabás calou-se. Mas após um momento de silêncio:
- Sim, deve ter sido um homem extraordinário, se aquilo que dizes é verdade. No entanto, o facto de ter sido crucificado não prova que a sua força, ou o seu poder, não era, afinal, tão grande assim?
- Não... não é isso. A princípio eu também pensei assim, e é justamente o que aflige - ter acreditado em semelhante coisa, ainda que fosse só por um momento. Mas agora creio que compreendi o sentido da sua morte ignominiosa, agora que reflecti um pouco e falei com os outros, mais versados nas escrituras. Vês, por nossa causa ele, inocentemente, teve de sofrer tudo o que sofreu, até mesmo ter que descer ao reino das sombras. Mas ele voltará para dar provas do seu infinito poder. Ele ressuscitirá de entre os mortos. Estamos absolutamente certos disso.
- Ressuscitar? Ressurgir depois de morto? Que coisa mais estúpida...
- Não é uma coisa estúpida, ele irá faze-lo. E muitos acreditam que será amanhã bem cedo. Amanhã será o terceiro dia. Ele declarou, parece, que ficaria três dias no reino dos mortos. Eu nunca o ouvi dizê-lo, mas consta que assim o predisse. E amanhã, ao nascer do sol...
Barrabás encolheu os ombros.
- Não acreditas? - perguntou o outro.
- Não.
- Não, não. Nem podes acreditar... Nunca o conheces-te. Mas muitos de nós acreditam. E porque não se ele ressuscitou tantos mortos?
- Ressuscitou mortos? Não é possivel!
- É sim. Eu vi com os meus próprios olhos.
- É verdade? Tu vis-te com os teus olhos?
- Claro que é. A pura verdade. O seu poder é ilimitado. Pode fazer tudo, é só ele querer. Ah, seria bom se quisesse usar esse poder em benefício próprio! Mas nunca o fez.

domingo, 12 de outubro de 2008

Vinha de longe, muito longe...

Ah, vinha de longe, de muito longe. Os seus olhos infantis tentaram expressar o quanto era distante o lugar de inde vinha. Confiou abertamente a Barrabás o quanto desejava estar na sua casa, na sua terra natal, preferida por ele a Jerusalém ou a qualquer outro lugar do mundo. Mas não podia jamais voltar, não podia morrer e viver na sua terra, como queria, como tinha imaginado outrora. Barrabás estranhou. Porquê? Quem o impediria, se cada um tem o direito de fazer de si o que quiser?
- Oh, não!... - respondeu pensativo. - Não é assim.
Barrabás não pode deixar de perguntar porque é que ele estava ali. O outro não respondeu logo. Depois, hesitante, disse que era por causa do Mestre.
- Do Mestre? O teu Mestre?
- Sim, não ouviste falar no Mestre?
- Não.
- Naquele que foi crucificado ontem no Golgotá?
- Ah, foi? Não sabia nada disso. Porque é que foi ele crucificado?
- Porque estava determinado que assim tinha que acontecer.
- Determinado? Estava decidido que ele seria crucificado?
- Sim. Está nas escrituras. Além disso, o próprio Mestre o profetizou.
- Ele predisse-o? E está nas escrituras? Não as conheço assim tão bem para estar a par do que elas dizem.
- Nem eu. Mas sei que é assim.
Barrabás não o duvidava. Mas porque motivo tinha o tal de fatalmente ser crucificado? De que serviria? Era bem estranho.
- É o que eu também acho. Não compreendo a razão dessa absoluta necessidade de morrer. E ainda por cima, de maneira tão horrível. Mas as coisas deviam passar-se como ele tinha profetizado. Tudo teve de acontecer como estava determinado. E ele mesmo - acrescentou o homem, inclinando a grande cabeça - repetiu tantas vezes que ia sofrer e morrer por nós...
Barrabás fixou-o no olhar.
- Morrer por nós?
- Sim. Em nosso lugar. Sofrer e morrer inocentemente, por nossa causa. Devemos admitir que somos nós os culpados e não ele.
Barrabás ficou a olhar para a rua e não perguntou mais nada durante um tempo.

domingo, 5 de outubro de 2008

De que falariam eles...


Apurou o ouvido, mas os homens baixaram de novo a voz e ele não conseguiu entender mais nada.

De que falariam eles?

Pela mesma rua passava gente e era impossível ouvir mais alguma coisa. Quando porém o silêncio voltou, ouviu o suficiente para perceber que era mesmo sobre o que pensava. Era dele que estavam a falar. Do homem que...

Coisa estranha... ele mesmo, pouco antes, também pensava no homem! Passando por acaso em frente ao portão do palácio, pensou no crucificado. Perto do lugar em que o condenado tinha sucumbido ao peso da cruz, recordava-se outra vez de tudo. E agora aquela gente falava desse mesmo homem... Era estranho. O que teriam que ver com o crucificado? E porque baixaram a voz? Só aquele homem robusto de cabelos ruivos falava às vezes de modo que se ouvia dali onde estava; a sua compleição de gigante parecia não se adaptar aos cochichos.

Diriam eles qualquer coisa acerca da... da tal escuridão? De ter escurecido no momento da sua morte?

Barrabás pôs-se a ouvir atentamente, com tal exaltação que o deveriam ter notado, pois calaram-se de repente; ficaram mudos durante muito tempo, sem proferir qualquer palavra olhando-o de esguelha. Depois, murmuraram entre si qualquer coisa que ele não conseguiu entender. Mais tarde, despediram-se do homem ruivo e foram embora. Eram quatro e nenhum deles agradou a Barrabás.

Ele continuou ali sentado, a sós com o tal "rapagão" atlético. Tinha grande desejo em dirigir-lhe a palavra, mas não atinava com o que dizer para começar... O homem movia os lábios e sacudiu várias vezes a grande cabeça. Segundo o hábito da gente simples, manifestava as suas preocupações por gestos. Finalmente, Barrabás perguntou-lhe sem rodeios qual era a causa da sua aflição. Ele ergueu , com ar perturbado, os olhos azuis, muito redondos, e nada respondeu. Mas, após ter encarado o desconhecido durante alguns segundos, com expressão ingénua e crédula, perguntou se Barrabás não era de Jerusalém. Não, não era. Mas parecia que falava com o sotaque das pessoas daquela cidade. Barrabás respondeu que não vinha de muito longe, era das montanhas, vinha do leste. Viu-se claramente que isso inspirou mais confiança ao outro. Não gostava muito do povo de Jerusalém, disse-o directamente; aquela gente não merecia a mínima confiança. Uns patifes, verdadeiros bandidos, isso sim... Barrabás riu-se e concordou plenamente. E ele, de onde vinha?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008


No dia seguinte, passeando pela cidade, Barrabás encontrou muita gente conhecida, amigos e inimigos. Pareciam na maioria admirados de o ver, e havia os que estremeciam como se tivessem deparado com um fantasma. Isso causava-lhe uma sensação desagradável. Não sabiam então que ele fora libertado? Quando é que compreenderiam que não foi ele o crucificado?

O sol estava ardente; como era estranho os olhos habituarem-se àquela forte claridade! Teria contraído algum mal na vista durante a sua longa reclusão? Em todo o caso achou melhor ficar na sombra. Ao passar pela galeria de colunas da rua que conduzia à praça do templo, resolveu sentar-se sob a arcada para descansar um pouco os olhos. Na sombra sentiu um grande alívio.

Viu, mais adiante, alguns homens sentados ao longo da parede. Conversavam em voz baixa e não pareceram apreciar muito a sua chegada, pois olhavam-o de soslaio e baixaram ainda mais a voz. Ouvia uma ou outra palavra, mas era-lhe impossível seguir o fio da conversa. Aliás, esta não o interessava, os segredos daquela gente não eram da sua conta. Um deles, homem da sua idade, tinha também barba vermelha igual à sua, que se fundia completamente nos cabelos ruivos, bastos e desgranhados. Os olhos azuis tinham qualquer coisa de singularmente ingénuo, e o rosto era largo e cheio. Tudo nele era grande e forte. Era um rapagão desempenado e, a julgar pelas suas mãos e vestes, devia ser artesão. Pouco importava a Barrabás quem fosse aquele homem ou qual o seu aspecto, mas era uma dessas pessoas que não se pode deixar de notar, embora nada houvesse nele verdadeiramente fora do comum, a não ser os olhos azuis.

O homem estava evidentemente triste e os outros pareciam partilhar da sua tristeza. Deviam estar a falar de alguém que tinha morrido, ou coisa parecida. De vez em quando todos suspiravam dolorosamente, embora fossem homens adultos. Se, de facto, assim era, lamentavam a morte de alguém, fariam melhor deixar os queixumes para as mulheres, a quaisquer carpideiras.

De repente, Barrabás percebeu que o morto do qual falavam tinha sido crucificado - e que tinha sido ainda ontem. Ontem....?